sábado, 21 de julho de 2012

Tombuctu, uma ponte para o passado


Tombuctu é a região mais setentrional do Mali e abrange uma grande área do sudoeste do deserto do Sara. A capital da região, a cidade de Tombuctu, foi elevada a Património Mundial em 1988. Fundada pelos Tuaregues nos inícios do século XII, nas proximidades do rio Níger, a cidade foi parte integrante do importante e rico reino de Mali (1325 - 1433) e do de Songhay (1468-1591).
Conhecida como a Cidade dos 333 Santos, Tombuctu constituiu entre os séculos XIV e XVI, sob as dinastias Mandinga e Askia, um importante centro comercial, cultural e espiritual e um foco de difusão da religião muçulmana em África. A esta antiga encruzilhada de grandes caravanas e pólo de aprendizagem chegavam, vindos de diferentes regiões de África, engenheiros, arquitectos e estudiosos do alcorão…Tombuctu atraía viajantes de países longínquos. Os escribas copiaram milhares de obras de teologia, literatura, ciência, geografia e história, obras que chegavam à cidade através dos comerciantes nómadas. Foram também elaboradas obras originais de música e de poesia, muitas ilustradas com iluminuras de ouro.
A Unesco estima que já foram inventariadas cerca de 15 mil obras e que 80 mil ainda estarão dispersas por vários locais da cidade.
Classificadas pela Unesco, as mesquitas de Djingareyber e de Sidi Yahia e a universidade de Sankoré, reconstruídas durante o reinado do Íman Al-Aqib, da dinastia Askia (1493-1591), são testemunhos desta época áurea.
Nos inícios do século XIV, sob a égide Sultão Kankan Moussa (1312-1335/37), da dinastia Mandinga, foram fundadas a mesquita de Djingareyber e a universidade de Sankore. A mesquita foi construída por arquitectos trazidos da Andaluzia e do Cairo pelo Sultão, depois de ter regressado da sua peregrinação a Meca, em 1325.
Com a construção da mesquita de Djingareyber e da universidade, Tombuctu converteu-se num importante pólo de comércio, conhecimento e de cultura. A universidade acolhia astrónomos, matemáticos e juristas, atraindo estudiosos muçulmanos de toda a África e do Médio Oriente.
Entre 1570 e 1583 a mesquita sofreu várias intervenções que a engrandeceram: o minarete construído na época ainda continua a dominar a paisagem urbana actual. Como a mesquita Djingareyber, a universidade também foi restaurada pelo Íman Al-Aqib, entre 1578 e 1582. A mesquita de Sidi Yahia, construída possivelmente por volta de 1400, foi restaurada entre 1557 e 1578.
Supõe-se que no período da dinastia Askia cerca de 25 000 alunos frequentavam os vários centros de estudos do alcorão, entre os quais a universidade corânica de Sankore.
O esplendor de Tombuctu começou a desvanecer-se a partir do século XVI, apagando-se totalmente com o passar do tempo. Apesar de esquecido, os monumentos que continuam a despertar os nossos olhares para este ponto do Mali, e que outrora simbolizaram um saber intercultural e religioso, transformaram-se, por essa mesma razão, em mais um cenário de destruição e violência provocado por um extremismo religioso.
Depois do golpe de Estado de 22 de Março, aproximadamente dois terços do Mali ficaram sob o controlo do grupo Ansar Dine, combatentes rebeldes salafistas que preconizam a eliminação de todos os locais considerados sagrados, incluindo os mausoléus e os lugares com símbolos artísticos.
Este grupo rebelde defende que a veneração dos santos, sendo uma idolatria, não pode ser apoiada, tendo que se avançar para a destruição dos elementos que mantêm vivo o culto dos santos. Os combatentes prometem arrasar os túmulos dos santos de tradição sufista.
Desde o início dos tumultos já foram arrasados nove dos dezasseis mausoléus, alguns dos quais na mesquita Djingareyber, e a porta da mesquita Sidi Yahia arrombada. Numa declaração proferida a 18 de Junho, os responsáveis pelas bibliotecas comunicaram que a presença de grupos armados coloca em perigo o acervo de manuscritos.
No dia 28 de Junho, a Unesco, a pedido do Governo do Mali, colocou Tombuctu na lista do Património Mundial sob ameaça.
A comunidade internacional assiste, mais uma vez impotente, à devastação de um património que retrata, num continente em que as notícias e as lembranças mais frequentes estão relacionadas com golpes de estado, conflitos militares, catástrofes naturais e crises humanitárias, um tempo, uma época, uma sociedade onde se privilegiava o saber, a tolerância como impulsionadora do conhecimento cultural, científico e religioso - o que de melhor a humanidade pode e deve criar.

O Mali é atualmente um país de grandes músicos, não sendo por isso de estranhar que muitos integram a chamada World Music. Um dos génios musicais, já falecido, é Ali Farka Toure, considerado o “Rei dos Blues do Deserto”.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Vidas suspensas em Dadaab


Dadaab, localizado no nordeste do Quénia, cerca de 100km da fronteira entre o Quénia e a Somália, é conhecido por representar o maior complexo de campos de refugiados do mundo: Hagadera, Ifo e Dagahaley.
Encontrando-se sob a proteção e administração do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), a Dadaab chegam refugiados provenientes de várias regiões da África Oriental, populações que fogem dos conflitos militares e das prolongadas secas que têm atingido a região. A maioria dos refugiados (aproximadamente 97%) pertence à população somali que, devido à violência provocada pelas guerras civis no sul do país, procuram aqui refúgio e ajuda.
Criado inicialmente como um acampamento temporário para abrigar refugiados que fugiam da guerra civil que atingiu a Somália após a queda do ditador Mohamed Siad Barre, o complexo completou 20 anos de existência em 2011. Estendendo-se por uma área de 50km² e projectado para abrigar uma população de 90 000 refugiados, 30 mil em cada campo, atualmente acolhe mais de 463 mil refugiados, incluindo as 10 000 pessoas que constituem a terceira geração nascida em Dadaab. Em 2011, perante as terríveis condições de fome provocadas por uma das mais graves secas dos últimos anos, o número de refugiados somalis que chegavam ao complexo ultrapassava, em média, os 1000 por dia. Em Junho desse ano chegaram 30 000, em Julho 40 000 e em Agosto 38 000, número que elucida a triste e difícil realidade em que continua a viver o povo desta região, conhecida por “Corno ou Chifre da África".
Chegar à entrada do complexo é uma vitória: os refugiados que aqui chegam conseguiram sobreviver aos conflitos e perseguições na sua terra natal, a dias de caminhada sob um sol abrasador, resistiram à fome e à sede. Os recém-chegados são primeiramente identificados e registados na tenda do ACNUR, depois são submetidos a um exame médico no espaço da organização Médicos Sem Fronteiras (as crianças são vacinadas, pesadas e medidas, e de acordo com o grau de subnutrição podem ser imediatamente internadas; se o caso não for grave, a família recebe orientação para ser acompanhada num posto médico de um dos campos). Concluídos estes procedimentos, é distribuída uma cesta com bens básicos para 21 dias. Por cada membro do agregado familiar é entregue 4,4kg de farinha, 4,4kg de farinha de milho, 1,2kg de feijão, 600g de óleo, 100g de sal, 420g de açúcar e 945g de uma mistura fortificada de milho e soja. Há também pontos de distribuição de água, mas, segundo a organização dos Médicos Sem Fronteiras, as quantidades disponíveis não são suficientes: se o consumo de água recomendável é de 20 litros por pessoa, em Dadaab este valor fica entre os 3 a 4 litros. De acordo com os dados disponíveis, em 2011 80% das grávidas estavam anémicas, 6,3% a 9,4% das crianças até aos 5 anos estavam subnutridas e havia unicamente 1 latrina para 25 a 30 pessoas.
Outra grande dificuldade dentro dos campos é encontrar um teto, já que desde de 2008, data em que o complexo foi declarado lotado, não há distribuição oficial de barracas; cada um procura construir um abrigo com o que encontra, desde gravetos, a panos e plásticos.
Nos três campos há escolas, mas o seu número (38, segundo os dados de 2011) e as vagas existentes não são suficientes para todos poderem completar o 1º ciclo. Embora representem casos raros, alguns jovens conseguem bolsas e autorização para estudar em Nairobi ou na cidade de um outro país. Como os refugiados não são reconhecidos como cidadãos, qualquer tipo de trabalho é-lhes vedado, pelo que o diploma não se traduz em melhores oportunidades de vida e mesmo que pudessem, não existem no campo cargos compatíveis com as habilitações literárias obtidas. Mesmo assim, o sonho de muitos jovens passa por completar os estudos universitários.
Embora não possam trabalhar, ao longo dos 20 anos de existência foi-se desenvolvendo no campo uma economia baseada no comércio. Nos mercados encontram-se produtos básicos, como os alimentares e roupa, até perfumes,  brinquedos e cinema.
A segurança em Dadaab é assegurada pela polícia queniana. A segurança das sedes e escritórios da ONU e das ONGs é assegurada por uma empresa particular contratada pela ONU. Os membros das agências humanitárias têm toque de recolher, não sendo recomendável sair depois das 18h e antes das 7h. Para prevenir situações de rapto, os jornalistas são transportados em comboio policial ou em escolta armada.

A viver em condições de vida precárias, cidadãos de um lugar do qual tiveram que fugir e sem direito à cidadania do país que os acolheu, os refugiados de Dadaab, assim como todos aqueles que vivem em tantos outros campos de refugiados, têm a sua vida em suspenso.


 

 Segundo os dados do ACNUR, mais de 968 mil somalis vivem como refugiados em países vizinhos, principalmente no Quénia (520 mil), Iémen (203 mil) e Etiópia (186 mil). Um terço fugiu da Somália em 2011. Outros 1.3 milhões estão deslocados dentro do país.


segunda-feira, 23 de abril de 2012

Os refugiados choram, silenciados


Enquanto houver discriminação, intolerância política, étnica e religiosa a criar cenários de guerra e perseguições há refugiados.
O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) é uma agência da ONU fundada em 1951 pela Assembleia das Nações Unidas com o propósito de apoiar, dar assistência e proteger todo o indivíduo ou toda a população vítima de perseguição, violência e intolerância. Constituindo atualmente uma das principais agências humanitárias do mundo, procura cumprir dois objectivos básicos: proteger homens, mulheres e crianças refugiadas e procurar soluções que proporcionem um regresso permanente a uma vida normal e condigna.
A Convenção de Refugiados de 1951 determina que o termo refugiado aplicar-se-á a qualquer pessoa que “receando, com razão, ser perseguida em virtude da sua raça, religião, nacionalidade, filiação em certo grupo social ou das suas opiniões políticas, se encontre fora do país de que tem a nacionalidade e não possa ou, em virtude daquele receio, não queira pedir protecção daquele país; ou que, se não tiver nacionalidade e estiver fora do país no qual tinha a sua residência habitual após aqueles acontecimentos, não possa ou, em virtude do dito receio, não queira regressar.” - Convenção de 1951 do Estatuto de Refugiados, artigo 1º, e Protocolo relativo ao Estatuto dos Refugiados aprovado em Assembleia Geral em 1967. A Convenção também estabelece que “nenhum país deve expulsar ou devolver um refugiado, contra a vontade do mesmo, em quaisquer ocasiões, para um território onde possa sofrer perseguição.”
No final de 2010 estavam sob a jurisdição da ACNUR 10.549.686 refugiados, a sua maioria oriundos de países africanos e asiáticos, e 14.697.804 de deslocados internos. Se as catástrofes naturais podem explicar a deslocação forçada de algumas das populações, são os conflitos resultantes da intolerância política, étnica e religiosa que constituem a grande razão para que continuemos a confrontar-nos com este flagelo.
Na década de 90, do século XX, a guerra civil que deflagrou no Ruanda entre a etnia tutsi (minoritária) e os hútus (etnia maioritária) levou à perseguição e ao massacre de milhares de tutsis pela população hútu. Os danos humanos desta crise são incontornáveis: dois milhões de refugiados, aproximadamente 1.5 milhões de deslocados internos e estima-se que, entre os meses de Abril e de Julho de 1994, foram mortas cerca de 800.000 pessoas.
            Na mesma década, entre os anos 1992 e 1995, a região da Bósnia e Herzegovina sofreu um conflito armado que envolveu os três grupos étnicos e religiosos da região: os sérvios cristãos ortodoxos, os croatas católicos romanos e os bósnios muçulmanos. Qualificado como o mais violento e prolongado conflito da Europa desde o fim da II Guerra Mundial, vitimou 200.000 pessoas (entre militares e civis) e criou 1.8 milhões de refugiados e deslocados internos.
            Entre 2003 e 2006 a região do Darfur foi palco de um conflito armado que desencadeou, no entender da Nações Unidas, uma das maiores crises humanitárias. Darfur é uma região semi-árida localizada no oeste do Sudão constituída maioritariamente por populações de origem centro-africana. Os Fur, os Masalit e Zaghaw constituem as três etnias predominantes, em geral muçulmanos ou seguidores de outras religiões africanas. Estas populações não árabes foram alvo de perseguições empreendidas por milícias árabes, denominadas Janjawid, recrutadas entre os Baggara, tribos nómadas de língua árabe e de religião muçulmana. Neste conflito étnico-cultural, que continua a registar focos de tensão, estima-se que já morreram 400.000 pessoas e que entre refugiados e deslocados no interior do país o número ronde os 1.9 a 2.5 milhões de indivíduos. De acordo com os dados estatísticos do ACNUR, o Sudão registava em 2010 um total de 387.288 refugiados, valor superior ao da população da Islândia, que é, de acordo com os dados estatísticos de 2011, de 311.058 habitantes.
         Segundo os relatórios do Conselho Norueguês para refugiados e do ACNUR, o atual conflito sírio já vitimou 11 mil pessoas, provocou mais de 200 mil desalojados internos e 61 mil refugiados, aproximadamente. Em reunião realizada no dia 20 de Abril deste ano, o Director de Programas de Emergências da UNICEF anunciou que 50% dos refugiados que cruzam a fronteira sírio-libanesa são menores de idade. Para além dos desalojados internos resultantes do actual conflito, a Síria já tinha cerca de 400 mil pessoas desalojadas em consequência da guerra de 1967 com Israel.
         Deslocados à força por verem as suas aldeias destruídas e vandalizadas, os familiares, amigos e vizinhos assassinados sem outra razão que não seja a diferença étnica, política ou religiosa, os seus haveres devastados, os quais, muitos já parcos, só conseguiam manter uma mera subsistência familiar; obrigados a percorrerem centenas ou milhares de quilómetros até encontrarem um local que os faça sentir protegidos da violência de que foram alvo, os campos de refugiados constituem para a população refugiada e para os deslocados internos um “porto seguro”, a esperança de que afinal pode haver um futuro.
            Os conflitos por que estas regiões passaram (muitas mais foram cenários de crises humanitárias ao longo do século XX e continuam a ser nestas primeiras décadas do século XXI) espelham a incapacidade da humanidade viver em sintonia com os direitos mais básicos do ser humano:
- “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos… devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.”
- “Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.”
- “Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.”
- “Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários…”

            Princípios, consagrados na Declaração dos Direitos do Homem, que todos os povos e países deviam de reconhecer e respeitar de modo maduro e responsável.

 
Pedem pão e a certeza de comê-lo
 
Refugiados vagueiam quem os quer?
São aos milhões por esse mundo fora
são indesejáveis a criança e a mulher
refugiados indefesos esperam sua hora.

Pedem o pão e a certeza de comê-lo
em paz e sem constrangimento
esperam uma mão que lhe toque no cabelo chorando no íntimo o seu desalento.

Não pedem aos governantes uma flor
pedem a paz, um abrigo, o simples respirar  duma esperança que lhes traga o amor, a dignidade de viver e poder amar.

Em toda a parte vagueiam refugiados
são a mancha de quem não sabe governar

vítimas do egoísmo e círculos viciados 
são aos milhões e não param de aumentar.                                            

Pedem o pão e a certeza de comê-lo
respiram ameaças e uma atmosfera vã
clamam por amor e a certeza de obtê-lo
na expectativa do que trará o amanhã.
                                   
                                      José Valgode




domingo, 15 de abril de 2012

Conhecer a Terra a partir do espaço

             Recuados vão os tempos em que a localização e o conhecimento geográfico dependiam de instrumentos como o quadrante (instrumento de medição usado pelos portugueses durante os Descobrimentos, por exemplo), da bússola (pensa-se que foi Mestre Jaime, judeu converso, que em 1420 chegou a Portugal a convite do Infante Dom Henrique, quem ensinou os portugueses a trabalhar com a bússola), do astrolábio (a sua versão mais moderna foi desenvolvida por Abraão Zacuto, em Lisboa, a partir de versões árabes mais antigas e menos precisas, tendo já sido aplicada na descoberta do caminho marítimo para a Índia e do Brasil), entre outros.
Entre o período dos descobrimentos portugueses e o século XXI, muitas e profundas transformações ocorreram nos processos e meios de observação e estudo da Terra e dos corpos celestes, invenções e descobertas que enriqueceram o conhecimento e a compreensão do nosso planeta e do cosmos.
O século XX é, por natureza, o século das tecnologias de localização, informação e de comunicação, avanços que colocou ao dispor das diferentes áreas da ciência um dos instrumentos mais eficazes de investigação e análise da superfície da Terra: os satélites artificiais.
Encontram-se atualmente em órbita vários tipos de satélites, entre os quais, os satélites do Sistema de Posicionamento Global (GPS), de comunicação (utilizados nas telecomunicações), de observação da Terra, meteorológicos e os militares.
O satélite meteorológico tem como principal função monitorizar o estado do tempo e o clima da Terra; secundariamente pode controlar e captar os efeitos da atividade humana, como a distribuição das luzes no espaço geográfico, as queimadas, os níveis de poluição atmosférica, as auroras polares, as correntes oceânicas, entre outros elementos. Considerando que estamos a atravessar uma época de alterações dos padrões climáticos, este tipo de satélite assume um papel vital na previsão do estado de tempo, da variação do clima e de catástrofes naturais com origem na atmosfera.
O Envisat, satélite europeu lançado a 1 de Março de 2002, na Guiana Francesa, e que orbitava a uma altitude de 800km, representa o maior satélite de observação da Terra construído até à data. A Agência Espacial Europeia (ESA) perdeu contacto com o satélite a 8 de Abril deste ano, depois de ter recebido imagens da Península Ibérica e das ilhas Canárias - as últimas enviadas por este satélite.
O Envisat processava uma análise global e rigorosa da atmosfera, continentes, oceanos e calotes polares/glaciares do planeta. Conseguia, entre outras ações, realizar medições relativas ao solo (caso da densidade da cobertura vegetal), analisar a dinâmica dos solos (deslizamentos de terra…) e da atividade vulcânica, monitorizar o movimento dos glaciares, cartografar a topografia dos oceanos e medir a altura das ondas, controlar a composição química e a dinâmica da atmosfera: medir a velocidade do vento, do vapor de água existente na atmosfera e da água presente nas nuvens, avaliar a composição global de gases na troposfera e na estratosfera, como por exemplo os níveis de Ozono e CFC`s da estratosfera.
Os dados recolhidos eram utilizados para o estudo científico da Terra, análise ambiental e alterações climáticas. A informação enviada pelo Envisat foi utilizada por 70 países, em mais de 4000 projetos.
A cartografia – “conjunto dos estudos e operações científicas, técnicas e artísticas que intervêm na elaboração dos mapas a partir dos resultados das observações diretas ou da exploração da documentação, bem como da sua utilização”, de acordo com a definição adotada pela ACI (Associação Cartográfica Internacional) – conheceu uma verdadeira revolução com o aparecimento dos satélites artificiais e o seu uso como instrumento de estudo e de investigação. Os mapas tradicionais dão lugar aos mapas digitais, que representam com elevado grau de pormenor e precisão os elementos e a dinâmica da superfície terrestre, permitindo-nos ter uma percepção real do mundo em que vivemos e que partilhamos.


            Ver:  Europa vista do espaço à noite

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Culturas antigas num mundo globalizante


O México, com uma área de 1.972.547 km² e com uma população de 113,7 milhões de habitantes, segundo estimativas de 2011, está dividido em 31 estados mais o Distrito Federal, no qual está localizada a segunda cidade mais populosa da América, a Cidade do México. O país, destino de eleição de muitos turistas, nomeadamente de portugueses, apresenta uma riquíssima cultura que, ao contrário do que se possa pensar, conseguiu resistir e sobreviver às mudanças que o atual território do México sofreu ao longo dos últimos 500 anos. As civilizações Maia, Azteca, Zapoteca…desapareceram e as suas cidades e templos ficaram esquecidos no tempo, encobertos por uma vegetação que tudo ocultou e escondeu. Mas se os impérios desvaneceram-se, os povos que deles fizeram parte conseguiram que a sua cultura, a sua identidade enquanto povo, resistisse ao tempo – não desapareceram, eles coexistem com o estilo e modos de vida da sociedade "moderna" do século XXI.

Em todo o território mexicano existem 57 grupos indígenas, sendo o estado de Oaxaca o que  apresenta maior número de comunidades – 15 grupos. Na região do sudeste, na qual se incluiu a península do Yucatão, subsistem 22 grupos.
 Exteriormente, as comunidades indígenas diferenciam-se através dos seus trajes típicos.

 No estado de Oaxaca, cuja população é 90% indígena, predominam os Zapotecas e os Mixtecas. As comunidades ainda vivem num grande isolamento, fruto de uma precária, ou em mesmo inexistente, rede de vias de comunicação. Com estradas de terra batida como principal via de circulação, o burro continua a ter  primazia como  meio de locomoção. As comunidades mantêm uma estrutura social muito própria, rejeitando frequentemente a autoridade do governo federal.
Representam as comunidades mais pobres do país, vivendo quase exclusivamente do turismo. Devido ao isolamento em que vivem e à falta de apoios no sector da saúde, as mulheres ainda continuam a fazer os partos tal como os Zapotecas os faziam: de pé.
Com o castelhano como língua oficial, cada comunidade possui o seu dialecto.

 No estado de Chiapas, nome de um grupo indígena, o dialecto predominante é o maia, apesar de subsistirem múltiplos dialectos. Possuidor de uma grande riqueza em recursos naturais, nomeadamente em petróleo, as comunidades deste estado, em conjunto com as de Oaxaca, são das mais pobres do país.
Todas as comunidades têm à entrada da aldeia uma cruz com um ramo de pinheiro, em que a cruz simboliza o Universo.
Na comunidade de Chamula, a estrutura social e cultural apresenta características muito específicas: um código moral e penal próprio; os conflitos e as divergências entre habitantes, assim como todas as questões jurídicas, são colocadas perante um tribunal de anciãos, e só a ele cabe tomar uma decisão; o policiamento é feito por um corpo policial escolhido pelo conselho de anciãos; não permitem que sejam fotografados, uma vez que crêem que as fotografias captam a alma das pessoas.
As mulheres e as crianças não vão ao centro de saúde, continuando a recorrer aos métodos tradicionais, tais como ao xamã da aldeia. Os habitantes acreditam que quando se está doente o Nagual (alma) também está enfermo, pelo que o curandeiro é chamado a investigar a causa da enfermidade do Nagual: o primeiro passo do curandeiro é pegar no pulso e, tomando uma bebida, proceder ao rito de limpeza dos males do corpo; se o doente não melhorar depois da purificação do corpo, sacrifica-se uma galinha no templo e acendem-se velas de várias cores, em que cada cor corresponde a um pedido.
 Em Chamula, os rituais de xamanismo harmonizam-se com os ritos católicos, pelo que os xamãs praticam estes rituais no interior da igreja cristã, podendo estes decorrer simultaneamente com cerimónias católicas. Nesta comunidade o baptizado constituiu um dos poucos rituais católicos aceites pela população.

Mas mesmo estas comunidades estão abertas aos produtos das sociedades modernas: a marca coca-cola está totalmente instalada nas comunidades de Chiapas, constituindo não só um elemento decorativo das fachadas de casas como substituiu as bebidas tradicionais utilizadas nos rituais de xamanismo!

     



Os elementos que escassamente procuram retratar as comunidades indígenas de dois estados foram todos recolhidos e registados durante uma viagem.

terça-feira, 20 de março de 2012

Culturas antigas: o mundo celta

Durante uma aula sobre diversidade cultural, um aluno interpelou-me sobre a cultura céltica. Embora o assunto constitua  um tema fascinante, a questão extrapolava a temática da aula, pelo que acordámos que o esclarecimento seria dado neste espaço. Espero que os factos aqui expostos sucintamente contribuam para o elucidar.
Celta é o termo usado para designar o conjunto de povos de raiz indo-europeia que migraram para o oeste da Europa a partir do segundo milénio a.C.
 Os celtas não constituíam um povo uno, com uma estrutura política e social coesa, estando organizados em múltiplas tribos, cada uma estabelecida numa área geográfica específica: bretões, gauleses, helvécios, belgas… Pode-se dizer que a arte, a língua e a religião eram os elementos unificadores entre os vários povos celtas.

Segundo as fontes, a dispersão dos povos celtas pela Europa realizou-se ao longo de duas grandes etapas, designadas culturas Hallstatt e La Tène.
O período Hallstatt, que se prolonga entre 1200 a.C. e 500 a.C, corresponde ao final da Idade do Bronze e à primeira Idade do Ferro (cerca de 750-450 a.C.); pode-se considerar que foi uma fase de transição entre a idade do bronze e a do ferro. O nome atribuído a este período deve-se à necrópole arqueológica localizada nas margens do lago Hallstatt, na Áustria, na qual foram encontrados mais de 2000 túmulos e mais de 6000 objetos.  A zona geográfica ocidental da cultura Hallstatt incluía os atuais territórios do norte da Itália, Suíça, França oriental, Alemanha meridional e Boémia (atual República Checa). Áustria e Eslováquia são territórios que compreendiam a zona geográfica oriental. Neste período foram produzidas obras de arte como joalheria feita em bronze e ouro e estelas de pedra; nas fases finais começaram a surgir as primeiras espadas de ferro. Acredita-se que os celtas foram os pioneiros no trabalho e uso do ferro na Europa
À cultura Hallstatt sucede, na maior parte da Europa Central, a cultura La Tène. Esta cultura desenvolveu-se e propagou-se durante a segunda Idade do Ferro (de 450 a.C. à conquista romana, no século I a.C.) nos atuais territórios da França oriental, Suíça, Áustria, sudoeste da Alemanha, República Checa e Hungria. O seu nome deriva do nome da aldeia localizada no lago Neuchâtel, na Suíça, onde foi descoberto o sítio arqueológico.
Segundo alguns historiadores, os celtiberos (povo que habitava na península Ibérica desde o século VI a.C.) resultam da fusão do povo celta com o ibero (povo autóctone). Outras opiniões defendem que os celtiberos eram um povo celta que assimilou e adaptou traços da cultura ibera.

A partir do século II a.C. os celtas começaram a perder território com as incursões dos povos germânicos e com as invasões e conquistas dos romanos. Em 192 a.C. os romanos ocupam a Gália Cisalpina (norte da península Itálica); em 52 a.C. Júlio César, ao vencer a batalha de Alésia, conquista a Gália, tornando-a uma província romana; no século I d.C. a Bretanha (atual Grã-Bretanha) é dominada pelo imperador Cláudio. De toda a área celta, somente a Irlanda e o norte da Bretanha permanecem territórios de identidade celta. A conquista romana da península Ibérica durou aproximadamente 200 anos: em 133 a.C. os celtiberos são derrotados com a queda da Numância.

Os investigadores consideram que os povos celtas teriam uma língua comum até ao início do primeiro milénio a.C., época a partir da qual a língua terá divergido para dois dialectos celtas distintos, conhecidos atualmente por gaélico e britónico ou Celta-Q e Celta-P. O grupo gaélico é representado hoje pelo irlandês, manx ou manês e gaélico escocês; o grupo britónico pelo galês, córnico e bretão. No britónico, que constitui uma mutação do gaélico, segundo opinião de alguns historiadores, a letra Q foi substituída pelo P. Por exemplo, em gaélico, a palavra para filho é mac; nas línguas que representam o britónico a palavra assumiu as formas de map (galês e córnico) e mab (bretão).

Os celtas adoravam um grande número de deuses e professavam um grande respeito pela natureza. Acreditavam que algumas árvores possuíam virtudes específicas: o espinheiro-alvar protegia tanto os animais como os humanos do raio; o visco curava os animais; a hera era um amuleto; o azevinho conduzia à imortalidade e o teixo era a árvore sagrada por natureza. A presença do teixo na base dos menires anteriores à cultura La Tène leva os historiadores a crer que tinha a função de zelar pelos mortos e que era tido como um símbolo da ressurreição.
Do panteão celta podem-se destacar as divindades Dagda, Deus supremo do panteão, pai dos deuses e dos homens, Deus dos magos e sacerdotes, senhor dos artesãos, da música e das curas, Deus da magia e da terra; Belenus, também conhecido por Belenos, o Deus do Sol; Lug ou Lugh, também considerado Deus do Sol e da guerra na Irlanda e no País de Gales; Brigit ou Brigid, filha do Dagda, era a Deusa do fogo, da fertilidade, da agricultura, da poesia…; Cernunnos, Deus da Natureza, Senhor do Mundo.
No mundo celta o panteão não era homogéneo, variando entre os povos e as tribos as divindades veneradas e os nomes a elas atribuídos. Os deuses não viviam em comunidade como a do tipo do Olimpo Grego: partilhavam grutas, dólmens, túmulos, nascentes, o interior das montanhas. O seu culto era praticado ao ar livre, em clareiras.

Do calendário celta faziam parte quatro importantes festividades religiosas: Samain, celebrado no dia 1 de Novembro; Imbolc, no 1º de Fevereiro; Beltaine, no 1º dia de Maio; Lugnasad, no dia 1 de Agosto.
A festa de Samain marcava o começo do novo ano céltico; os celtas acreditavam que durante a noite de Samain o Sidh (locais onde habitavam os deuses), as ilhas e os túmulos eram abertos, permitindo o contacto entre o nosso mundo e o dos mortos. O Imbolc, dedicado à Deusa Brigid, marcava o renascimento da vida da natureza depois do seu período de hibernação (inverno). Beltaine era uma festa dedicada a Belenus e marcava o início do verão e a “morte” do inverno. Era um festival de fertilidade, simbolizando a união entre as energias masculina e a feminina. Lugnasad, comemorado sob a protecção do Deus Lug, celebrava a chegada das colheitas.

Em todos os povos celtas os druidas desempenhavam um papel primordial na sociedade; eram os líderes religiosos, constituindo uma classe privilegiada dentro da sociedade. Para além de presidirem às cerimónias religiosas, desempenhavam as funções de educadores e de juízes. Tinham conhecimentos de medicina, agricultura e astronomia. Ainda eram responsáveis pela conservação da tradição celta, toda ela oral, já que os celtas não utilizavam a escrita. Segundo relatos, todos os anos, numa data fixa e num local sagrado, realizava-se uma grande assembleia de druidas da Gália. Diferentes descobertas arqueológicas levam a supor que esse local situava-se perto de Saint-Benoît-sur-Loire. As mulheres também integravam a classe druídica, sendo a sua maioria profetizas.
 Os druidas representavam a força e a coesão política, cultural e religiosa entre os povos celtas, pelos que os romanos, segundo os testemunhos disponíveis, procuraram eliminar o druidismo. Mesmo assim, ele perdurou até à Idade Média na Irlanda e até ao século V na Gália.

Com a ocupação dos territórios celtas pelos romanos e pelos povos germânicos (caso da Grã-Bretanha pelos anglo-saxões) a cultura e identidade celta foi-se diluindo. No entanto, em territórios como a Irlanda, Escócia e Bretanha (região no norte da França para onde migraram os bretões fugidos das invasões anglo-saxões que assolaram a Grã-Bretanha a partir do século V d.C.), a influência cultural celta jamais desapareceu. Pode-se mesmo afirmar que está a passar por um ciclo de renascimento e expansão com o aparecimento de música de inspiração celta e no reviver de muitos usos e costumes.


segunda-feira, 12 de março de 2012

Este país é para velhos?

Quando se pensa na situação demográfica de Portugal muito provavelmente surge nos nossos pensamentos o título do livro “Este País Não É para Velhos”, de Cormac McCarthy.
Portugal é um país, à semelhança de tantos outros países europeus, que se caracteriza por um contínuo agravamento do envelhecimento da população e para o qual não apresenta respostas credíveis.
Desde o ano de 2002 (último ano em que Portugal registou valores iguais ou superiores a 1,5) que o índice sintético de fecundidade oscila entre os 1,3 e os 1,4 filhos por mulher. 1,32 e 1,37 foram os valores registados em 2009 e 2010, valores que ficam muito aquém do mínimo necessário para assegurar a renovação das gerações: 2,1 filhos por mulher - índice de renovação de gerações.
A taxa de natalidade, acompanhando o comportamento do índice de fecundidade, tem registado valores igualmente muito baixos. Nos últimos 5 anos, exceptuando o de 2007, em que ambas as taxas apresentam iguais valores - 9,8‰, a taxa de natalidade tem registado valores inferiores aos da taxa de mortalidade: em 2010 a taxa de natalidade foi de 9,5‰ enquanto que a de mortalidade foi de 10,0‰. A título comparativo, em 2000, último ano em que a taxa de natalidade registou valores acima dos 11‰, a taxa de natalidade foi de 11,7‰ e a da mortalidade de 10,3‰, o que perfez uma taxa de crescimento natural baixa, mas ainda positiva.
Ao contrário da taxa de natalidade, que tem sofrido um decréscimo constante, a esperança de vida em Portugal tem aumentado significativamente. Em 1970, a esperança de vida à nascença era de 67,13 anos (63,99 no sexo masculino e 70,25 no sexo feminino); no ano de 1980 aumentou para 71,07 (observando-se um maior aumento no sexo feminino, que passou para os 74,81 enquanto que a do sexo masculino ficou nos 67,81 anos); em 2000 já era de 76,40 anos (72,89 nos homens e 79,90 anos nas mulheres) e entre 2008 e 2010 Portugal já é um país com uma esperança de vida de 82,05 anos nas mulheres e de 76,14 nos homens (média de 79,20 anos).
Com uma esperança de vida à nascença elevada, e com tendência a aumentar, e uma taxa de crescimento natural negativa, e sem perspetivas de uma mudança neste indicador, Portugal necessita de refletir profundamente sobre o seu futuro demográfico, identificando linhas de acção que criem situações que promovam uma mudança do comportamento da natalidade e  infra-estruturas que assegurem condições de vida dignas a uma população cada vez mais idosa e sem recursos que lhes permita auto sustentar-se.
Criar uma sociedade que nos permita rebater o pensamento de François Chateaubriand, Outrora, a velhice era uma dignidade; hoje, ela é um peso”, deve representar uma das prioridades sociais e demográficas do nosso país.